Tecnologia e o primeiro satélite brasileiro

No dia 9 de fevereiro de 1993, o Satélite de Coletas de Dados (SCD-1) era lançado pelo foguete Pegasus, um foguete que não sai do chão, mas da asa de um avião, o primeiro do Brasil. E, na verdade, uma fantástica história de sucesso da tecnologia nacional.

Por MARIO EUGENIO SATURNO 03/02/2021 - 22:13 hs

Eu fui contratado pelo INPE em 9 de outubro de 1985, já era o início do esforço do governo em recuperar as equipes e os salários para que o projeto fosse feito. Tudo era preliminar, por exemplo, concebiam um satélite estabilizado por mastro (pesquisem, é interessante), mas optou-se por giro, como um pião. No meu grupo, de computação (supervisão) de bordo, projetamos dois computadores com funções diferentes. Eu fiquei responsável pelo desenvolvimento do software e dos testes do computador e satélite.

 

O INPE foi meu primeiro emprego, não o único. Aventurei-me como microempresário, professor (ITA, Unitau, IMES), mas no INPE aprendi a fazer tecnologia de ponta. Tive que fazer cursos para trabalhar com qualidade, testes, verificação, validação, área limpa, câmara acústica, câmara de vácuo e tc.

 

Em 1988, já tínhamos os modelos de qualificação prontos para serem

maltratados pelos testes. Nesse período, começaram a fabricar os modelos de voo e começamos a testar os equipamentos do SCD-2.

 

O Brasil entrou em crise em 1990, esfriando os projetos até julho de 1992, quando o governo federal liberou o orçamento. Originalmente, o satélite seria lançado por um foguete brasileiro, o VLS, que não teve sucesso nos testes. Então, foi assinado o contrato com a empresa norte-americana Orbital Sciences Corporation (OSC), em 20/08/92, para o lançamento do SCD-1 com o foguete Pegasus. Esse foguete inovou o modo de lançar satélites, pois carregava o foguete na asa de um avião B-52 e disparando- o a uma altura de 13 km.

 

Em julho, eu estava de férias, quando recebi um telefonema do Carlos

Santana, gerente da Missão Espacial, estava informando que ele cancelara minhas férias e que eu deveria desenvolver um equipamento portátil de comunicação (telemetria e telecomando) para testar o satélite na integração com o foguete e no avião na pista de decolagem. O equipamento do INPE, comprado por 400 mil dólares da época, era muito grande. Três colegas tecnologistas fizeram o equipamento eletrônico e eu desenvolvi o software em apenas dois meses.

 

Finalmente, em 15 de novembro de 1992, embarcamos para os Estados Unidos da América para integrar o satélite no foguete. O Pegasus ficava em uma área da NASA, na Base de Edwards, deserto de Mojave, Califórnia. O foguete apresentou problemas e, no dia 7 de dezembro retornamos ao Brasil.

 

Voluntariei-me para ir para a Base Espacial de Alcântara, de onde acompanhamos e tive o privilégio de ser o primeiro a comandar o SCD-1.

No dia seguinte, 10 de fevereiro de 1993, recebemos a visita do Estado Maior que estava reunido em Alcântara. Chegaram com seus uniformes chiques e imponentes... Porém, o ar condicionado da Antena tinha quebrado e a temperatura que estávamos suportando era de 50 graus Celsius. Eles não aguentaram dez minutos, mas nós estávamos fazendo História!

 

Mario Eugenio Saturno (cientecfan.blogspot.com) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano